Trecho do Texto

Alguns pensam que Kurt (Weill) era arrogante. Não era. Era apenas terrivelmente tímido -e aquela timidez mantinha as pessoas longe dele, como uma parede que ele construíra a seu redor. Ninguém realmente conheceu Kurt Weill. Eu me pergunto às vezes se eu o conhecia. Foram 26 anos juntos. Quando Kurt morreu, olhei para ele e não tive certeza de que eu realmente o conhecera.

Quando alguém estava concentrado conversando com ele, Kurt parecia estar ouvindo, mas ele estava escutando outra coisa com um ouvido interno. Um dia, perguntei pra ele: "Kurt, você não me ama? Minha presença aqui em casa não significa nada para você?". E ele respondeu: "O que você quer dizer, querida? Você sabe que você vem logo depois de minha música!"

Encontramos Brecht pela primeira vez num restaurante da moda. Kurt sugeriu que gostaria de musicar alguns dos poemas dele. Brecht disse:
"Maravilha! (fingindo um charuto entre os dedos) Isso é bom!" Mais tarde, quando ele veio a nosso apartamento pela primeira vez, nossa senhoria deu uma olhada para ele parado na porta e disse (pensando que ele fosse um mendigo e fechando a porta): "Não, não. Não podemos dar nada hoje." Kurt ouviu a voz dele: "Espere um minuto. Deixe-o entrar".

Brecht era magro e frágil. Mãos sempre encardidas com unhas negras. Olhos profundos, nunca parados, piscando sempre, sempre registrando reações. Lábios finos, (mostra os cantos da boca) com manchas negras úmidas dos charutos que fumava sem parar. Dentes horríveis, barba sempre por fazer. Quepe de couro no inverno, de linho no verão. Roupas nunca exatamente limpas.

LENYA, parte 2, de AMIR LABAKI