 |
|

O olhar da direção
Numa entrevista de Brecht a Guillemin em 1926 a palavra "épico" apareceu pela primeira vez no discurso do dramaturgo alemão, ainda com o social tratado como pano de fundo e - após escritos sobre Mahagonny, em 1931, e notas a respeito da Ópera dos Três Vinténs em 32 - é que finalmente Brecht formalizou sua teoria do teatro épico, no famoso esquema que descreve a “Forma dramática do teatro” e a compara com a “Forma épica do teatro”. As óperas, portanto, foram fundamentais para o desenvolvimento da estética brechtiana.
“Lenya”, o monólogo de estréia de Amir Labaki, nos revela detalhes sobre Kurt Weill e sua esposa, Lotte Lenya, duas importantes figuras que colaboraram ativamente com a obra de Bertolt Brecht. Longe das discussões teóricas, a peça é uma saborosa narração dos bastidores do Pequeno Mahagonny no Festival de Baden-Baden, do confuso ensaio geral da Ópera dos Três Vinténs, da polêmica apresentação de Happy End na qual Helene Weigel lê um panfleto político, da preocupante tensão nos teatros com a presença dos nazistas e de muitos outros fatos envolvendo o trabalho de Lenya, Weill e Brecht.
Em “Lenya” o que está em foco é a vida e a carreira da atriz, de seu nascimento até sua morte, passando pelos 26 anos em que conheceu Kurt, casou-se com ele, separou-se e casou-se novamente, acompanhando-o em seu exílio nos EUA, motivado pela ascensão do nazismo. O texto - baseado em entrevistas, cartas, depoimentos e biografias - tem forte alicerce documental e Labaki soube dosar, com pequenas interferências ficcionais e com canções cantadas ao vivo, a poesia necessária para apresentar, pela primeira vez no Brasil, a história da atriz e cantora Lotte Lenya.
Já tive oportunidade de adaptar para teatro e dirigir “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis e “Itinerário de Pasárgada”, de Manuel Bandeira. Aparentemente incompatíveis com as necessidades cênicas, estes textos foram se revelando absolutamente teatrais. “Lenya” me interessou-me desde o primeiro momento, pois o alicerce documental do texto, ao contrário de torná-lo “não encenável”, instiga a direção a buscar soluções teatrais. Evidentemente este é um assunto superado depois das brilhantes transposições para o palco de Aderbal Freire-Filho, batizadas como “romances-em-cena”, mas de toda forma, há sempre um desafio em montar textos literários ou não convencionais.
O texto mostra na carga narrativa a influência de sua ligação com o documentário, apresentando o recorte da visão de Lenya sobre sua vida e carreira, embasado em vasta e refinada pesquisa histórica feita pelo autor. O fato de não haver publicações no Brasil sobre Lenya acentua o interesse sobre a peça, pois o público poderá conhecê-la e também acompanhar um período muito importante para as obras de Weill e Brecht.
Nos anos 20 e 30 o teatro e as artes em geral viveram uma explosão de criatividade, vitalidade e ousadia, marcando o desenvolvimento de vários movimentos, entre eles a teoria do teatro épico de Bertolt Brecht: o emprego de filmes; a utilização da canção interrompendo a ação dramática, funcionando como um número isolado que ironiza qualquer possibilidade de ilusionismo; a exibição do músico e seu instrumento e tantos outros elementos que hoje são corriqueiros e diluídos no panorama teatral, nasceram naqueles efervescentes anos, com objetivos bastante precisos e revolucionários. Em “Lenya” buscamos resgatar o sabor daquele período, estilizando e retrabalhando alguns de seus símbolos, como o célebre ringue de boxe de Mahagonny, cenário de Casper Neher, ou o figurino de Jenny na Ópera dos Três Vinténs.
As projeções de Berlim, dos trabalhadores do Partido Nazista, da queima de livros e das personagens de Lenya localizam a história, acentuando o clima da cena e, por um momento, funcionam como um comentário dissonante à situação apresentada.
Neste monólogo de Amir Labaki, a personagem Lenya narrará sua luta para fazer parte da cena teatral berlinense e, posteriormente, a saga para manter a obra de Kurt Weill viva nos Estados Unidos.
A interpretação neste monólogo é econômica e direta, fazendo com que o texto seja apresentado sob três pontos de vista: o da atriz que narra, o da personagem que vive a situação dramática e o de Lenya velha, que relembra nostalgicamente sua vida. Ao lado disto, a história é entremeada por canções cantadas ao vivo pela atriz Mônica Guimarães, acompanhada ao piano por Demian Pinto, com diversas e diferentes funções: as músicas escolhidas para abrir e encerrar o espetáculo, September Song e Lost in the Stars, representam a fase americana do compositor; as songs brechtianas (Mac Navalha, Alabama Song e Surabaya Johnny) pretendem resgatar os números musicais que quebravam a ação nos espetáculos e canções como Speak Low e Nannas Lied estão integradas de forma lírica à ação da peça.
Além do caráter inédito do projeto, o espetáculo comemora os 110 anos de nascimento de Lotte Lenya, uma das principais intérpretes das canções de Kurt Weill.
Regina Galdino
|