Por Lenya

Amir Labaki

Todo mundo conhece Lotte Lenya –mas poucos lembram de pronto quem ela é. Lenya assumiu um posto em nossa memória coletiva como a traiçoeira vilã dissidente soviética Rosa Klebb em “Moscou contra 007”. A senhora da faca na ponta do sapato se tornou imediatamente uma das imagens arquetípicas do mal no cinema. É um delicioso paradoxo que uma das mais importantes intérpretes teatrais do século 20 deva seu reconhecimento público internacional a um papel de coadjuvante numa aventura de James Bond.

A extraordinária modéstia de Lotte Lenya por muito tempo cobrou seu preço. Apenas a partir de seu centenário de nascimento, celebrado há exatos dez anos, Lenya começou a ter devidamente reconhecido seu talento ímpar e sua importância como parceria de uma das mais geniais duplas de colaboradores do teatro moderno: o compositor Kurt Weill e o dramaturgo Bertolt Brecht.

É como que um símbolo “avant la lettre” do destino de Lenya a supressão de seu nome dos créditos do programa da estréia de “A Ópera dos Três Vinténs”, a mordaz sátira musical que consolidou a parceria Brecht/Weill. Por tempo demais Lenya foi excluída do grande quadro.

No máximo, era lembrada como jovem coadjuvante nas peças alemãs de Weill, seu marido, ou como intérprete das canções dele como sua viúva. Entre aquele não-ser e ser a “viúva Weill”, Lotte Lenya teve sua real identidade eclipsada. É mais que hora de fazer-lhe justiça.

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Esta peça celebra a vida e a obra de Lotte Lenya, reconstituindo o essencial de sua trajetória o mais possível por meio das próprias palavras da atriz. As citações se originam em entrevistas, cartas, textos por ela escritos e declarações recuperadas pelo depoimento de amigos. O essencial do monólogo surgiu assim de meu trabalho de seleção, condensação e tradução, complementado pelo exercício criativo de complementação dramática destas falas.

Este texto teria sido impossível sem os trabalhos pioneiros de David Farneth em “Lenya, The Legend” (Thames and Hudson, 1998), de Lys Simonette e Kim H. Kowalke, que editaram e traduziram para o inglês a correspondência entre Kurt Weill e Lotte Lenya em “Speak Low (When You Speak Love)”, University of Califórnia Press, 1996, e de Donald Spoto, autor da citada “Lenya –A Life” (Little, Brown and Company, 1989). A eles, meu reconhecimento e minha gratidão.

“Lenya” jamais alcançaria os palcos sem a generosa acolhida do projeto pela Kurt Weill Foundation for Music, de Nova York, que cedeu os direitos sobre a vida e os textos de Lotte Lenya.

(Trecho da introdução a "Lenya")